domingo, 7 de agosto de 2022

ABAIXO A BAIXOFOBIA!

 

“Desde que começamos a sair juntos, nunca mais usei salto alto”, disse-me ela, na expectativa de que eu, em seguida, expressasse profunda gratidão. Ela acreditava que estava me fazendo um grande favor, só que o fato de ser mais alta do que seu namorado causava constrangimento apenas a ela. Eu, ao contrário, estava muito feliz ao lado daquele mulherão, felicidade essa que acabou quando ela me trocou por um jogador de basquete da NBA.

“É dos carecas que elas gostam mais”, porém dos baixinhos as mulheres só querem distância. Entre os últimos 100 “nãos” que recebi, 117 foram por causa da minha baixa estatura. Os políticos corruptos são perdoados, os assassinos seriais e psicopatas fascinam as pessoas, mas os baixotes sempre foram e sempre serão cancelados pela sociedade. Seria paranoia minha? Mania de perseguição? Autoestima baixa? Vejamos.

O galã do cinema Tom Cruise, nas filmagens, não dispensa sapatos de salto alto ou plataformas para disfarçar sua baixa estatura, o que, mais antigamente, já fazia Humphrey Bogart. Hoje em dia já não é mais segredo que Santos-Dumont cometeu suicídio e que Machado de Assis era negro, mas poucos ousam revelar que eles eram muito baixinhos.

Todo o preconceito contra os baixinhos se expressa na nossa linguagem do dia a dia. Baixarias e golpes baixos são considerados comportamentos reprováveis. Ninguém quer que seu time seja rebaixado para a segunda divisão. É melhor pertencer à alta sociedade do que ao baixo clero. É preferível estar com alto-astral do que pra baixo. Nas baladas, as pessoas bebem para ficarem “altas”. Receber alta hospitalar é motivo de alegria para o enfermo e sua família, contudo receber baixa das Forças Armadas pode representar uma grande desonra. Um rei é chamado de “vossa alteza”. E, por fim, altivez é um belo sentimento, que merece ser enaltecido por todos.

Pois é, vivemos em um mundo em que o valor de um homem se mede em centímetros. No entanto, no peito dos baixinhos “também bate um coração”. Assim, para enfrentar toda essa discriminação contra nós, que é estrutural, proponho que seja criado um sistema de cotas. Por exemplo, a cada 1000 namorados da Scarlett Johansson, 117 deveriam ser baixinhos. E um deles deveria ser brasileiro, morador de Copacabana, torcedor do Flamengo, psiquiatra e, principalmente, fã do Woody Allen, o baixinho mais genial que já existiu.

 06/08/2022

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

DIÁLOGO ENTRE DOIS AMIGOS EM UM CAFÉ EM COPACABANA

--- Em relação a esse ciúme que sinto da minha namorada, o que devo fazer?

--- Tome um antipsicótico.

--- Pedi o conselho de um amigo, não o de um psiquiatra.

--- Ok. O meu conselho então é “procure um psiquiatra”.


segunda-feira, 30 de março de 2020

FICA A DICA



“Se conselho fosse bom, ninguém dava de graça”.

Fica a dica...

AGRADECIMENTO AOS QUE COMPARECERAM AO LANÇAMENTO DO MEU LIVRO SOBRE O WOODY ALLEN



Quero agradecer imensamente às pessoas que foram me prestigiar nesse evento para mim tão especial e tão importante, o lançamento do meu livro sobre o Woody, na noite da última quinta-feira. Depois de um dia inteiro de trabalho, ainda tiveram que suportar uma longa e demorada fila na Travessa de Ipanema (Duas horas para alguns, me informaram!). Eu não poderia deixar de reconhecer o esforço e o sacrifício de vocês (Sim, estou me sentindo culpado.). Fiquei muito feliz e comovido com a presença de cada um! Juro que, depois de uma tarde angustiante recebendo dezenas de mensagens de “Parabéns! Sucesso! Mas infelizmente...”,  eu achava que só iria aparecer meia dúzia de gatos pingados.
Algumas pessoas generosas poderão retrucar, dizendo que mereço tanto carinho. Contudo, Hamlet, na peça de Shakespeare, diz o seguinte: “Se dermos a cada homem o que merece, quem escapará do açoite?”. Assim, se o trágico personagem estiver certo, graças a vocês saí no lucro. E muito!
Nunca me esquecerei. Vocês estarão sempre no meu coração! (Ao lado do Flamengo, do Zico, do Tom Jobim, do Machado de Assis, do Van Gogh, do Hitchcock, da Scarlet Johansson e, é claro, do Woody Allen.)


(Junho, 2019)

sexta-feira, 27 de março de 2020

PANDEMIA? QUE PANDEMIA?


No iniciozinho deste ano, eu estava jantando com um amigo, quando, da caixa de som do restaurante, ouvimos uma música. Para puxar assunto, perguntei quem estava cantando. Indignado, meu amigo respondeu: “Como assim você não sabe quem está cantando?!”. E, expressando admiração, completou: “É Fulana!”. De fato, eu não conhecia aquela voz horrorosa, muito menos a letra mais do que pueril ou a melodia paupérrima. Porém, nada disso falei, com medo de ferir os sentimentos do meu amigo e, principalmente, de levar um soco na cara, já que ele é bem maior do que eu. Em vez disso, indaguei humildemente: “De onde eu deveria conhecê-la?”. Sua resposta debochada foi: “Do mundo”.

“O que tenho eu a ver com o mundo?!”, pensei. Ele não sabia, mas, desde meados do ano passado, eu resolvera romper com o mundo. Inconformado com a situação do planeta, especialmente do nosso país, eu tinha decidido me alienar. Eu não aguentava mais ver diariamente as notícias sobre violência urbana, desigualdade social, aquecimento global, guerras e corrupção ou demagogia dos nossos governantes. Só desgraça! Como se isso não bastasse, eu estava chocado com o sucesso extraordinário no meio artístico de pessoas sem qualquer talento, como a tal Fulana.

Então, da noite para o dia, eu, que lia diariamente 117 jornais do mundo inteiro, parei por completo de acompanhar o noticiário. Deixei até de ver a previsão do tempo, com medo de me aborrecer. Agora, se o mundo acabar, só vou saber uma semana depois.

No dia a dia, se estão discutindo perto de mim algo sério, principalmente política, me afasto ou tapo os ouvidos, para não saber de coisa alguma. Podem me chamar de alienado, de ignorante, mas, desde que tomei a decisão de me proteger do mundo, passei a sofrer menos e a me sentir mais feliz - ou, pelo menos, menos infeliz.

Tudo corria relativamente bem até que, nas últimas semanas, o mundo resolveu se vingar e me punir pelo meu comportamento. Foi armado um gigantesco complô contra mim, e, de uma hora para a outra, todos, ao mesmo tempo, resolveram me rejeitar. Recentemente, telefonei para um amigo, para chamá-lo para ir comigo a um jogo do Mengão no Maracanã, e ele, do outro lado da linha, começou a rir. No dia seguinte, enviei uma mensagem para uma linda moça, convidando-a para uma boate, e a resposta dela foi: “Você está maluco?!”. Todos os meus pacientes cancelaram as consultas comigo, e a minha analista e a minha fisioterapeuta não querem mais me atender. Por onde ando, as pessoas se afastam de mim e se recusam a me abraçar ou me beijar. Sequer consigo um aperto de mão! E, para completar, os meus amigos passaram a usar máscaras na rua para que eu não consiga reconhecê-los.

‘Tá bom, admito que, no momento, as coisas não estão boas para mim. No entanto, estariam muito piores se eu tivesse voltado a ler as notícias.



27/03/20

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

“UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK”: MAIS DO MESMO? AINDA BEM!



Domingos Oliveira certa vez fez o seguinte comentário: “Um dos maiores prazeres da minha vida é quando os jornais anunciam um novo filme de Woody Allen. Meu coração bate, sabe que vai encontrar uma alma tão romântica quanto a minha. Não resisto. Estou sempre na pré-estreia, que, por falar nisso, nunca está lotada como eu sempre imagino que estará. Woody Allen não é um sucesso de bilheteria em praticamente nenhum lugar no mundo. Sua plateia não inclui os burros. E os inteligentes são poucos”.
Identifico-me inteiramente com o grande cineasta e dramaturgo brasileiro, recentemente falecido. De 1982 a 2017, Woody fez um filme por ano, eventualmente mais de um. Assim, nesse longo período, a cada ano eu experimentava uma grande expectativa quanto à estreia de um novo filme do cineasta nova-iorquino, da mesma forma que uma criança espera ansiosamente a chegada do Natal, quando irá ver o Papai Noel e ganhar presentes.
Todavia, a regularidade das produções de Woody foi quebrada. Em função da acusação contra Woody de ter abusado sexualmente de sua filha adotiva Dylan quando ela tinha sete anos, os movimentos #MeToo e Time’s Up iniciaram, nos últimos anos, nos Estados Unidos, uma campanha de perseguição contra o cineasta. Isso influenciou fortemente a mídia, que passou a condená-lo ou, no mínimo, a dizer que a questão era polêmica. Como consequência, a Amazon decidiu não lançar “Um dia de chuva em Nova York” e não produzir os próximos filmes de Woody, rasgando assim o contrato que tinha com ele. Configurou-se então uma situação completamente absurda, já que, no longínquo ano de 1992, a polícia de Connecticut, com a colaboração de uma equipe do Hospital Yale New Haven especializada em abusos sexuais de crianças, investigou a acusação e concluiu que Woody era inocente. Ou seja, ele sequer foi processado criminalmente.
Diante desse tenebroso cenário, há não muito tempo temia-se que “Um dia de chuva em Nova York” jamais chegasse ao público e que Woody não obtivesse mais financiamento para novos filmes. No entanto, para a felicidade geral dos fãs do cineasta, o filme conseguiu distribuidores na Europa, na Ásia e na América Latina, embora não nos Estados Unidos. Nas últimas semanas, a toda hora eu via nas redes sociais postagens de pessoas de várias partes do mundo que exibiam, com orgulho, imagens de ingressos para o filme e comentavam, nas mais diversas línguas, sobre a sua satisfação em poder vê-lo, despertando em mim inveja e ansiedade.
Eis que, na última quinta-feira, dia 21 de novembro, finalmente “Um dia de chuva em Nova York” estreou no Brasil. Foi em dezembro de 2017 que eu havia assistido ao seu filme anterior, “Roda Gigante”. Assim, já se contavam praticamente dois anos de uma abstinência para mim insuportável, o que me obrigou a fazer como Domingos e ir na pré-estreia, que aconteceu na véspera. A propósito, a sessão estava lotada.
Gostei bastante do filme, mas reconheço que não está entre os maiores do cineasta. Vários críticos consideraram o roteiro pouco criativo e afirmaram que Woody havia repetido nele diversas situações e personagens de outras de suas comédias românticas. De fato, elementos recorrentes de sua obra estão novamente presentes em “Um dia de chuva em Nova York”: o amor por Nova York, aversão ao campo, infidelidades amorosas, a paixão de homens de meia idade por mulheres bem mais novas, prostitutas, a música de Irving Berlin e, especialmente, romantismo. Aliás, como em vários outros de seus filmes, em “Um dia de chuva em Nova York”, as cenas românticas ocorrem especialmente quando está chovendo.
Contudo, não considero essas repetições como defeitos. Adoro rever várias vezes os filmes de Woody, rindo das mesmas piadas, me emocionando com as mesmas cenas. Tendo assistido a todos os seus filmes sem exceção, a minha relação pessoal com a sua obra cinematográfica é mais com o conjunto do que com os filmes isolados. Vejo as repetições de Woody como expressão de sua fidelidade a si próprio e a seu público e como oportunidades para eu revivenciar prazeres antigos.
Na quarta-feira, ao término da sessão, eu não queria sair da sala de cinema e voltar a enfrentar o aterrorizante mundo real. Forçado a ir embora, ainda permaneci em um estado de transição entre a fantasia e a realidade por alguns minutos. Num primeiro momento, achei estranho não estar chovendo lá fora. Além disso, ainda durante essa transição, me senti feliz e romântico. Então, me veio o impulso de ir até a minha amada e declarar o meu amor, e imaginei que, se nós dois fôssemos personagens de um filme de Woody Allen, estaria chovendo e, sob a chuva, nos beijaríamos apaixonadamente.

(novembro de 2019)

ESCREVENDO O LIVRO SOBRE O WOODY ALLEN




Meu amor,
Fiquei um pouco constrangido quando você me perguntou se hoje eu não tinha UERJ, mas tenho que lhe revelar a verdade. Para escrever o livro sobre o Woody, a partir de hoje, não vou mais à UERJ, ao IPUB ou ao consultório. Preciso de tempo integral para me dedicar à escrita. Assim, nos próximos 11 anos e meio, que é a previsão para eu terminar a primeira versão do livro, você vai ter que me sustentar. Mas não se preocupe, pois não vou dar muita despesa. Ficarei feliz vivendo apenas com a sua vitamina de morango e os seus beijinhos.

27/02/2018

CONVERSA DE ELEVADOR




Na portaria do prédio, os dois vizinhos esperam o elevador. O porteiro entrega a eles as suas correspondências, há pouco deixadas pelo carteiro. Chega o elevador, um abre a porta para o outro, que formalmente agradece e retribui a gentileza:

---- Qual é o seu andar?

E agora? Viria aquele silêncio constrangedor? Alguém faria comentários sobre o clima?

---- Só contas pra pagar. --- Reclama um deles, quase que mecanicamente.

---- Pois é, e nenhuma carta de amor! ---- Lamuria-se o outro, suspirando profundamente.

Diante de uma resposta tão inusitada, vinda de um quase total desconhecido, o primeiro fica desconcertado, sem saber o que dizer.  Mas logo o seu andar chega para resgatá-lo.

MENTIRAS


--- Você fala essas mentiras para todas?

--- Que isso, meu bem?! Fico até ofendido com essa pergunta. Juro que minto só para você, para mais ninguém!


(2014)

RETIRANDO O PASSAPORTE



Na Polícia Federal, retirando meu passaporte, o funcionário me estende uma folha de papel e diz:

--- Escreve aí seu CPF com letra bem legível.


Obediente que sou, comecei a escrever: “nove”, “três”...


(final de 2014)

SEM COMENTÁRIOS




Entreouvido na noite carioca:

--- Eu conto toda a minha história e você não faz nenhum comentário!

--- Era pra fazer comentário? Por que você não disse antes? Aí eu teria prestado atenção.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MENTE E CORPO







Mente e corpo são algo único e indivisível ou representam duas coisas diferentes? Para Woody Allen, “a mente abarca todas as mais nobres aspirações, como poesia e filosofia, porém o corpo é que fica com toda a diversão”. Segundo uma corrente filosófica bastante radical, o materialismo eliminativo, só o corpo é real e a mente simplesmente não existe. Isto até pode ser verdade, pelo menos em relação aos participantes do Big Brother Brasil, com seus corpos esculturais e cérebros inteiramente inabitados.
No meu caso em particular, mente e corpo estiveram sempre muito separados e nunca se entenderam muito bem. Para mim, meu corpo era meramente um meio de transporte, provisório, para a minha alma. Esta concepção se formou quando eu era criança, em função de minha educação católica, que me fez valorizar apenas a alma e desprezar o corpo. Aprendi que eu tinha que ser um bom menino para que a minha alma, imortal, fosse para o Céu após a morte do meu corpo, impuro.
Mais tarde, já que a Deise, minha sedutora colega do ensino médio, não queria nada comigo, passei a adolescência lendo Machado de Assis e Nelson Rodrigues, jogando xadrez e vendo no cinema ou em videocassete Hitchcock, Woody Allen, Frank Capra e Truffaut. É verdade que também jogava uma bolinha de vez em quando e sonhava em ser ponta-direita do Flamengo. Mas eu era tão ruim no futebol que acabei indo fazer faculdade de medicina mesmo. Afinal, por pior médico que eu viesse a me tornar, não mataria tanta gente quanto se fosse atacante do Mengão – os corações de milhões de torcedores não resistiriam a tantos gols feitos perdidos.
Na vida profissional, continuei negligenciando o corpo e me dediquei à psiquiatria, a especialidade médica que cuida das doenças da mente. E ainda fui fazer formação psicanalítica, onde aprendi que o corpo e o cérebro são meros detalhes inconvenientes. (Para ser justo, não era bem assim que Freud pensava. Se ele ressuscitasse agora e visse o que fizeram tomando seu santo nome em vão, com certeza cometeria suicídio!)
Todavia, recentemente, meu corpo resolveu se vingar e tive que dar mais atenção a ele. Num belo dia, forte fisgada na coluna lombar, do lado esquerdo. Este foi o laudo da ressonância magnética: “osteófitos marginais incipientes em L4, L5 e S1; abaulamento discal difuso em L4-L5 endentando o saco dural e as porções inferiores dos foramens neurais”.
Consultei-me com uma fisiatra, a dra. Elizabeth, que diagnosticou que eu tinha problemas quanto à consciência corporal. Eu já sabia disso e relatei a ela um episódio que ilustra bem essa minha dificuldade. Certa vez, eu tinha ido ver um filme do Bergman com uma amiga. Depois da sessão, enquanto debatíamos o profundo significado da obra, de repente ela soltou um grito: “tira a mão daí, seu...!”. Não adiantou nada eu dizer que minha consciência corporal era igual a zero e que eu não tinha a menor ideia de como a minha mão tinha parado ali, justamente ali. Levei o tapa no rosto do mesmo jeito...
A fisiatra também me disse que eu não conseguia escutar o que meu corpo dizia. Achei que ela iria indicar uma audiometria ou me encaminhar a um otorrino, porém, em vez disso, ela recomendou Pilates e RPG.
Na primeira vez em que fui à aula de Pilates, fiquei bastante confuso. Chegando lá, vi aparelhos que lembravam instrumentos de tortura da Inquisição, mas também diversas bolas grandes e coloridas. Eu não sabia se iam esticar todo o meu corpo até que eu confessasse ser um herege ou me botar para brincar. Depois vim a descobrir que as duas coisas acontecem.
A RPG, por sua vez, até hoje é para mim um pouco estranha. No início de cada sessão, fico ali deitado e, Clarissa, minha dedicada fisioterapeuta, puxa daqui e empurra de lá, tentando colocar minhas vértebras de volta ao lugar certo. Parece que estou em uma oficina de automóveis: é como se ela fosse o lanterneiro e eu, o carro amassado. Só a pintura ela não faz...
De uns tempos para cá, além do Pilates e da RPG, tenho feito caminhadas, voltei a nadar, parei de beber e só como alimentos saudáveis. Desisti da Academia Brasileira de Letras e entrei para uma academia de ginástica mesmo, onde faço Indoor Psycho, ou melhor, Indoor Cycle. Agora, em vez de currículo Lattes, tenho currículo Pilates. Em suma, nunca cuidei tão bem da minha saúde física. Transformei-me em outro homem e meus hábitos se modificaram profundamente: o tempo todo ouço música sertaneja, fui a um festival de filmes do Stallone, estou lendo um livro de autoajuda, mandei fazer meu mapa astral e marquei uma consulta com um numerólogo. Tem até me dado uma vontade irresistível de ver o Big Brother na TV!
Pois é, agora é a minha mente que está se sentindo negligenciada...


12/01/2012

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ESPÍRITO ZOMBETEIRO





Recentemente, uma colega acessou meu blog e comentou que as crônicas ali postadas pareciam não terem sido escritas por mim. Segundo ela, os textos eram tão diferentes do meu modo de ser que era como se eu tivesse outra personalidade. Minha cara, você matou a charada! De fato, não sou o autor de nada daquilo. Todas as crônicas, acredite, foram psicografadas. Sim, vez por outra, uma alma de outro mundo, um espírito zombeteiro, invade meu corpo e o usa para escrever todas aquelas bobagens.
Gostaria de deixar bem claro que, diferentemente do que aparece nas crônicas, sou um homem muito sério, extremamente religioso e temente a Deus. Não torço por nenhum time de futebol e nem sei quais são as cores da camisa do Flamengo. Nunca ouvi falar nessa tal de Scarlett Johansson e só tenho olhos para a minha linda esposinha, de quem jamais me divorciaria. Amo minha mãe e adoro todos os meus colegas de trabalho e vizinhos, especialmente o general Waldick, do 505. (Na verdade, nem existe um quinto andar no meu edifício. Por uma incrível falha de engenharia, na construção do prédio esqueceram-se do quinto andar e colocaram o sexto imediatamente acima do quarto.) Não vejo a menor graça nos filmes do Woody Allen e só assisto a documentários científicos. Continuo acreditando que a psicanálise, principalmente a lacaniana, é a solução para tudo e para todos, e, apesar de a minha terapia ter sido muito bem-sucedida, ainda vou às sessões oito vezes por semana. Por fim, nunca tive Facebook e... odeio escrever!
O problema é que, de uns tempos para cá, o espírito não tem se contentado mais em apenas me fazer escrever as crônicas. Ele agora tem também assumido o controle sobre meu corpo e minha mente nas mais diversas situações. Assim, meu querido amigo, não fique magoado comigo por eu tê-lo chamado de “careca arrogante, estúpido e sem escrúpulos” e, em seguida, tentado estrangulá-lo, até ser contido por vários de nossos colegas. Quando fiz isso, eu não era eu. O que aconteceu foi que o espírito tinha se apossado de mim.
Novamente eu não era eu quando, vestido com uma camisa rubro-negra, entrei no meio da torcida do Vasco, em São Januário, gritando um monte de impropérios e fazendo gestos obscenos. Era tão evidente que eu estava fora de mim que os vascaínos nem se incomodaram comigo e ficaram totalmente indiferentes ao meu comportamento. (Portanto, foi inteiramente desnecessária e despropositada a intervenção dos 117 policiais militares, que, me agarrando pelos braços e pernas, muito gentilmente me convidaram a me retirar.)
Eu também estava sob o domínio do espírito maligno quando, num bar em Fortaleza, após meia dúzia de chopes, subi na mesa e comecei a fazer strip-tease, enquanto cantava os maiores sucessos de Carmen Miranda. O mesmo se deu no episódio em que, no meio de uma aula de psicopatologia que eu ministrava, para espanto de toda a classe, pulei para cima de uma voluptuosa aluna sentada na primeira fileira, tendo caído dentro de seu muito generoso decote. (Agora, depois que voltei da suspensão, só permitem que eu ministre aula usando uma corrente que prende minha perna à parede, impedindo, assim, maiores saltos na minha imaginação.)
Bom, acredito que agora já esteja esclarecida a minha total inocência nesses lamentáveis fatos, dos quais, aliás, não me lembro de nada. Depois de quinze anos de análise, não tenho mais nenhum problema em assumir a responsabilidade pelos meus atos – desde que, é claro, meu corpo não esteja possuído por um espírito zombeteiro.

05/12/2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

MEU GOSTO PELO ENSINO

 



Vários amigos – especialmente aqueles dois ou três que me acham um bom professor - me perguntam quando começou meu gosto pelo ensino. Na verdade, diferentemente do que muitos pensam, não foi durante o meu primeiro ano de residência médica, quando o professor Paulo Pavão me convidou para ministrar aulas de psicopatologia para os internos da psiquiatria da UERJ. Não, minha vontade de ensinar começou bem mais precocemente.
Começou quando eu tinha uns dezesseis anos e ainda cursava o segundo grau. Na época, eu era apaixonado por uma colega de turma chamada Deise. Eu a achava lindíssima e muito parecida com a Brooke Shields, por quem eu também era apaixonado e que aparecia seminua no filme A lagoa azul, grande sucesso entre os adolescentes de então. Volta e meia Deise, toda sedutora, aproximava-se de mim e dizia “me explica”, pedindo para eu lhe tirar as dúvidas das matérias do colégio. O modo como ela falava “me explica” era irresistível! Quem era eu para dizer não à Brooke Shields?! Claro que o meu raciocínio era o seguinte: eu daria a ela conhecimento e, em troca, receberia... sexo. Exatamente nesse momento, nasceu meu gosto pelo ensino. Pensando bem, na verdade o meu gosto pelo ensino era para ter morrido ali, pois não ganhei um beijinho sequer. Em contrapartida, burrinha que só ela, Deise também não conseguia entender quase nada do que eu lhe explicava. Contudo, ela acabou passando de ano, pois, além de ter um grande talento para a sedução, ela também era muito boa em colar nas provas. Colava não só de mim, mas também de outros rapazes, tão ingênuos quanto eu.
Revendo as fotos do colégio, percebo agora que Deise não era tão bonita e não se parecia em nada com a Brooke Shields, a qual, por sua vez, não chega aos pés da Scarlett Johansson, minha musa atual. Mas meus olhos adolescentes viam toda a beleza do mundo e toda a esperança de felicidade em Deise – e na Brooke Shields também.
Por onde andará Deise? Casou-se com um milionário? Seguiu seu talento natural e virou garota de programa? Desistiu da vida e se mudou para Portugal? Não faço a menor ideia. Eu é que, pelo menos metaforicamente, me vejo no mesmo lugar.
Sim, no mesmo lugar, pois, na carreira acadêmica, continuo explicando as coisas, na esperança de receber das outras pessoas algo valioso em troca. Não mais sexo, mas, agora, atenção e afeto. Em que outra situação na vida que não quando estou fazendo uma palestra ou ministrando uma aula tantas pessoas ficariam tanto tempo ouvindo o que tenho a dizer? Minha ex-analista, reconheço, me escutou por quinze anos... mas somente porque eu pagava uma fortuna a ela.
Encontro-me no mesmo lugar também porque continuo a me apaixonar a torto e a direito. Um pouquinho de atenção ou um simples sorriso já me fazem ver toda a beleza do mundo e toda a esperança de felicidade no outro. Pois é, já não tenho mais muito cabelo, preciso de óculos para ler e sinto dores na coluna lombar, no entanto continuo a ter dezesseis anos.
15/11/2011



domingo, 13 de novembro de 2011

MINHA QUEDA POR "UM CORPO QUE CAI"





Ao longo de minha vida, apaixonei-me por diversas mulheres – entre elas, a Scarlett Johansson -, por um livro – Dom Casmurro, de Machado de Assis -, por uma canção – Chovendo na roseira, de Tom Jobim -, por um time de futebol – nem preciso dizer qual – e por um filme.
Um corpo que cai (Vertigo, no original) é o meu filme favorito. Para começo de conversa, é dirigido por Alfred Hitchcock, meu cineasta preferido. Mas não o considero apenas o melhor filme do velho Hitch. Um corpo que cai, para mim, é o melhor filme de todos os tempos.
Assistir a Um corpo que cai pela primeira vez foi um momento mágico, inesquecível. Isso foi em 1984 e tinha eu uns dezenove anos. Já era fã do Hitchcock e já tinha assistido a Psicose, Intriga internacional, Os pássaros, Janela Indiscreta, entre muitos outros. Não imaginava, então, que o mestre do suspense pudesse ter feito algo ainda melhor. Mas fez. O filme estava passando no antigo cinema Veneza, em Botafogo, que não existe mais. Fui com meu amigo de adolescência Heraldo, meu amigo até hoje. Lembro-me de que saí do cinema extasiado, inebriado, como se estivesse ainda dentro de um sonho. Preferi retornar para casa a pé, embora tivesse que andar uma boa distância – e ainda atravessar um túnel -, para que a transição de volta para o árido e cruel mundo real pudesse ser mais lenta e, assim, menos brutal.
Quando Um corpo que cai foi lançado, em 1958, não fez muito sucesso, nem de crítica nem de bilheteria. Todavia, décadas depois, é figurinha fácil nas listas dos dez maiores filmes de todos os tempos. O que tem de tão especial nesse filme? Não sei explicar bem, para mim é algo muito pessoal. Não importa quantas vezes eu o tenha visto - pelo menos uma dúzia até agora -, sempre fico emocionado quando o revejo. Recentemente, eu estava participando de uma mesa-redonda, sobre cinema e saúde mental, quando uma colega, em sua apresentação, exibiu em vídeo a cena do suposto suicídio da suposta Madeleine (Kim Novak), supostamente saltando do alto da torre na antiga aldeia espanhola. Ainda bem que as luzes estavam apagadas e ninguém percebeu meus olhos marejados – eu suponho.
Mais do que um filme de suspense ou de mistério, Um corpo que cai é uma história de amor. Foi impossível para mim – e, penso eu, para qualquer espectador – não me apaixonar por Kim Novak e não me identificar com o voyeurismo de Scottie (James Stewart). Claro que o amor de Scottie por Madeleine é patológico, doentio e triste. Ele se apaixona por alguém que não existe, Madeleine, e se recusa a gostar da mulher real, Judy (também Kim Novak). E, além disso, tenta transformar a mulher real na idealizada, dando uma de Pigmalião, que, na mitologia grega, esculpiu a mulher perfeita e ainda se casou com ela.
A mensagem pessimista é que talvez toda paixão amorosa seja assim, um estado psicótico em que projetamos no outro somente coisas boas. Depois nos casamos com o ser amado e logo descobrimos que nada daquilo era real. Será que Pigmalião pediu a Afrodite que transformasse Galateia de novo em estátua, porque esta não parava de falar? Será que Pigmalião e Galateia acabaram se divorciando? Será que eu enjoaria da Scarlett Johansson?
A mensagem otimista é que Kim Novak era linda, Hitchcock era um gênio e Um corpo que cai será sempre um grande filme!
13/11/2011

sábado, 5 de novembro de 2011

MEUS SEGREDOS






Até recentemente, havia quatro coisas terríveis sobre mim, que eu não contava para ninguém. No entanto, agora que minha terceira ex-esposa, dando uma de Mia Farrow, acaba de publicar um livro em que revela todos os meus segredos mais íntimos e inconfessáveis, não tenho mais nada a esconder.
Um desses segredos é que tenho “Júnior” no nome. Nos últimos anos, tento tentado escondê-lo, assinando meus escritos simplesmente como “Elie Cheniaux”. Porém volta e meia ele reaparece impresso ao lado do meu nome, sem o meu consentimento, em um crachá de congresso ou no programa de algum evento científico, por exemplo. Aí reclamo, dou chilique, ameaço não aparecer para a minha apresentação, mas com frequência é tarde demais para se fazer a correção. Já aconteceu de alguém que me conhecia de nome, como “Elie Cheniaux”, vendo o “Júnior”, achar que eu não era eu, mas sim o filho de mim mesmo. Por que implico com o meu “Júnior”? Não deveria, pois com este nome ficou conhecido o Leovegildo Lins Gama Júnior, um dos maiores jogadores da História do Flamengo e aquele que mais vezes vestiu o Manto Sagrado. Além disso, é assim que minha doce e querida mãezinha me chama... Ah! Agora descobri por que não gosto do “Júnior”!
Outra coisa que sempre tentei omitir é que nasci em Niterói. Isto só aconteceu porque minha doce e querida mãezinha, que já morava com meu pai aqui na cidade mais linda do mundo – o Rio de Janeiro, é claro! –, cismou de me parir do outro lado da Baía de Guanabara, privando-me, assim, do orgulho de poder dizer que sou carioca. Fui para Niterói só para nascer, pois nunca morei num lugar diferente de Copacabana. Mas não vou ser totalmente ingrato com a minha cidade natal, pela qual sempre tive um grande carinho. Foi lá, especialmente na minha infância, que convivi com a minha avó materna, a pessoa que foi mais maternal comigo em toda a minha vida, e com o meu primo, o irmão que nunca tive. Além disso, Niterói tem uma belíssima vista – para o Rio, é claro!
 Outro segredo guardado a sete chaves é que sou tímido. ‘Tá bom, este segredo não é muito secreto, pois todas as pessoas que me conhecem e a torcida do Flamengo inteira sabem disso. A princípio, eu não sabia que era tímido, mas, com tanta gente me dizendo, passei a suspeitar que fosse verdade. E, mesmo depois de me convencer desse fato, eu continuava a negar, pois tinha vergonha da minha timidez. Mas, ao contrário do que falam, não se trata de um defeito; por sinal, é mais uma entre as 117 características que compartilho com o Chico Buarque. Sim, como todos sabem, temos uma enormidade de coisas em comum: moramos na zona sul do Rio, gostamos de futebol, torcemos por times cujas primeiras letras são F e L, amamos escrever, entre muitas outras – não vou citar todas para não cansá-los. Vivem me confundindo com ele na rua e ainda me pedem autógrafo!
Por fim, eu nunca havia contado a ninguém que não sabia dar nó em gravata. Sem dúvida uma vergonha para um homem com mais de quarenta anos na cara! Mas como, se há fotos em que eu apareço engravatado?! Montagem? Não, era meu pai quem dava o nó para mim. Agora que ele não está mais aqui, tive que me virar sozinho e, na semana passada, finalmente aprendi. Quem me ensinou foi meu amigo de adolescência e eterno amigo Fernando Augusto - boa gente, embora seja tricolor. Por algum motivo, ele me pediu que revelasse o nome dele. Ele quer passar para a História como o homem que ensinou o Elie Cheniaux a dar nó em gravata! Isso faz algum sentido? Será que imagina que milhões de pessoas vão ler esta crônica no blog ou vão comprar o meu livro e, assim, ele vai ficar mundialmente famoso?! Bom, quem sabe? Mas o importante é que estou me sentindo radiante! Agora consigo fazer algo que, em função de minha total falta de coordenação motora, parecia impossível para mim. Se eu fosse psicanalista – e, por acaso, eu sou -, diria que a gravata é um símbolo fálico e que estou me sentindo muito mais potente. Pode ser que Freud esteja certo. Agora você não me escapa, Scarlett Johansson! Imaginem só como vou me sentir quanto aprender a amarrar os sapatos!


02/11/2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

TÚMULO DO AMOR

 




Através dos tempos, tivemos os inquisidores da Idade Média, os nazistas, os stalinistas e os torturadores do regime militar brasileiro, entre muitos outros de não muita saudosa memória. Mas, em termos de crueldade, ninguém supera as ex-esposas.
Infelizmente meu inexorável destino era mesmo ser vítima da crueldade delas. Afinal, enquanto grande parte das pessoas sonha em se casar um dia, desde criança o meu desejo sempre foi me divorciar. Tendo assistido de camarote ao desastroso casamento dos meus pais, separados apenas pela morte, o divórcio tornou-se uma obsessão para mim. Eu precisava ir além, realizar o que meus pais jamais conseguiram. Jurei para mim mesmo que me divorciaria pelo menos uma vez na vida, ainda que, para isso, fosse preciso antes me casar!
Se foi só por isso que me separei de minha terceira esposa? Não, claro que não. Quem me dera! Você quer que eu liste os 117 motivos em ordem alfabética, cronológica ou de gravidade? ‘Tá bom, não vou falar em todos, contarei apenas dois ou três fatos. Por exemplo, eu esperava ouvir dela frases como “eu te amo”, “estou com saudades” ou, pelo menos, “o jantar está na mesa”. Até ouvi essas coisas no primeiro ano, mas depois ela só me dizia “você não faz nada direito!” - e ainda falava que eu não deveria encarar essa observação como uma crítica. Além disso, parecia que o que dava mais prazer a ela na vida era me irritar. A princípio, tentava fazer isso xingando minha mãe. Mas, como eu fazia coro com os xingamentos, ela então apelava, falando mal do Flamengo. Aí não dava para aguentar!
O fim mesmo do nosso casamento foi quando, no auge da raiva, ela me disse aos berros: “Você não é o Woody Allen!”. Até hoje não entendi bem o que ela quis dizer com isto, mas, mesmo assim, me senti profundamente ofendido. Só sei que havia muito tempo que ela não achava mais graça nas minhas piadas. Assim, confrontado com a minha própria mediocridade pela pessoa que, supostamente, deveria me amar e admirar, percebi que estava tudo acabado. Quando, num relacionamento, o humor vai embora, o amor segue o mesmo caminho. Ou vice-versa.
Mas não vou ficar aqui difamando a mãe do meu filho. Ela é, sem dúvida, uma mulher de grandes qualidades. Por exemplo, adora estudar. Entrou para diversas faculdades: física, direito, medicina, história, teologia e, novamente, direito. (Pois é, eu não faço nada direito, mas, volta e meia, ela faz...) Terminou algumas, outras não, mas está sempre estudando. Como exigir que uma mulher que estuda tanto – e que sabe tão bem o que quer na vida – ainda arrume tempo para trabalhar?!
Mas o pior ela me reservou para após o fim do casamento, ao publicar um livro em que conta todas as intimidades de nossa vida em comum, revelando ao mundo as minhas piores manhas, manias e esquisitices. (A Scarlett Johansson deve ter lido e ficado chocada. Só isto explicaria o fato de ela não ter respondido nenhuma das 117 cartas de amor que enviei para ela.)
Pois é, como disse Nietzsche, o casamento é o túmulo do amor. E se você, meu amigo, não quer ter uma ex-esposa, nunca se separe ou, melhor ainda, nunca se case. Contrair matrimônio é contrair a pior das doenças, que não se cura nem com o divórcio. Não dizem que ex-mulher é para sempre?

18/10/2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

DEUS EXISTE!





“Fotos de Scarlett Johansson nua caem na internet” foi a manchete que vi no site de notícias. Meu primeiro pensamento foi: “Deus existe!”. Vendo as fotos e tomado por fortes emoções, outra ideia me veio à mente: “Deus existe mesmo!!!”. De fato, pensei ainda, só Deus seria capaz de criar algo assim tão maravilhoso.
Todavia, depois que a poeira – assim como outras coisas - já tinha baixado, voltei ao meu racionalismo habitual e reassumi meu ateísmo fervoroso e praticante. Afinal, se existe uma Scarlett Johansson, existem no mundo milhões como a Angela Merkel, chanceler da Alemanha, sutilmente classificada pelo Berlusconi como “bunduda incomível”. Se existiu um Tom Jobim, existem milhões de duplas sertanejas. Se existiu um Mahatma Ghandi, existem milhões como o Berlusconi ou mesmo o general Waldick, meu adorável vizinho do 505. E por aí vai... Conclusão, se existe um criador, ele não é tão eficiente assim. De vez em quando acerta, mas, na grande maioria das vezes, só faz burradas. O mínimo que se poderia esperar de Deus seria a perfeição.
Claro que, se eu estivesse vendo neste momento a Scarlett aqui em casa, peladona e sorrindo para mim, aí sim teria uma prova inequívoca da existência de Deus. Ou, mais provavelmente, uma prova inequívoca da perda da minha sanidade mental. Mas, como nem o milagre nem a alucinação ocorreram, continuo um incrédulo.
Mas a minha fé no ateísmo não me impede de respeitar as religiões e, principalmente, os sentimentos religiosos. Assim, fiquei entusiasmado em participar ontem da 4ª Caminhada em defesa da liberdade religiosa, na praia de Copacabana. Não havia como eu deixar de apoiar um movimento que prega a tolerância mútua entre as várias religiões, as quais através dos tempos serviram – e ainda servem - como justificativa para tantas guerras. Senti-me totalmente identificado com a ideia de liberdade religiosa, pois, para mim, isto deveria incluir não só a possibilidade de cada um escolher a religião que quisesse, mas também o direito de escolher não ter nenhuma religião e não acreditar em Deus - e não ser discriminado por isso. Que ingenuidade a minha!
Cheguei lá na caminhada, todo animado, vestindo uma camiseta com a inscrição “Ateu, graças a Deus”. Mas parece que fui mal compreendido. Depois de inúmeros olhares ameaçadores e insultos à minha querida mãezinha, tive que sair correndo para não ser vítima do primeiro linchamento ecumênico da História. Contudo, apesar do susto, pude ver um lado positivo nesse episódio: pelo menos ele me fez recordar a minha doce e saudosa infância, quando meus pais momentaneamente paravam de brigar um com o outro e se uniam contra mim.


19/09/2011

sábado, 17 de setembro de 2011

AUTOESTIMA





Após uma argumentação minha a respeito de uma questão científica, recebo esta afetuosa réplica de um colega:

... Sou hoje, certamente, o maior divulgador dos ensinamentos do professor Fulano de Tal... Parece que você não entendeu nada do que disse Sicrano, se é que o leu... O que eu disse, e reafirmo, é que o trabalho primoroso de Sicrano tem hoje valor estatístico, o resto é resto; a minha prática de mais de quarenta anos o comprova...

Woody Allen diz que no show business é cobra comendo cobra ou, pior, cobra não retornando os telefonemas de outra cobra. Parafraseando meu ídolo, eu diria que na carreira acadêmica é cobra comendo cobra ou, pior, cobra não respondendo as mensagens eletrônicas de outra cobra. Depois da resposta do meu adorável colega, senti saudade do tempo em que as minhas mensagens eram simplesmente ignoradas.
Só quarenta anos de experiência psiquiátrica?! Pensei que fosse muito mais tempo, pelo menos o triplo! Mas, sinceramente, sinto uma enorme inveja do meu querido colega. Inveja, sim, juro por Deus! Ele ministra aulas sobre assuntos dos quais nada entende, tem ideias mais anacrônicas do que concurso de miss Brasil, fala descarrilhamento em vez de descarrilamento e usa mim para conjugar verbos – “para mim falar”, “para mim fazer” etc. No entanto, ele se acha o máximo... Como eu queria ter essa autoestima!
Se eu fosse psicanalista – e, por acaso, eu sou -, diria que inconscientemente ele sabe o quanto é medíocre e que sua arrogância é o resultado de um mecanismo de defesa que o impede de se ver como é. Se eu fosse psicopatólogo – e, por acaso... deixa pra lá -, diria que se trata de um delírio compensatório numa psicose enxertada. Mas o que importa? Essa defesa está funcionando para ele, que realmente acredita ser o príncipe herdeiro de um grande mestre em nossa área. A autoilusão é uma benção, a autoilusão é a chave para a felicidade!
O que me angustia é que sou exatamente o contrário. Todos dizem que sou lindo, brilhante e maravilhoso, mas não consigo acreditar. Bem, para ser sincero, ninguém fala nada disso sobre mim, mas, se falassem, eu também não acreditaria. Adoro receber elogios e, quando passo mais de uma semana sem ouvir algo positivo ao meu respeito, entro em crise de abstinência e penso em suicídio. Os elogios me fazem bem, mas jamais acredito neles. Sempre penso que a outra pessoa está apenas querendo ser gentil e simpática ou então exagerando. Porém, ruim com os elogios, muito pior sem eles...
Depois que três namoradas me disseram que eu tinha mãos bonitas, até cheguei a considerar, num primeiro momento, que pudesse ser verdade. Mas aí pensei: “Só elogiam as minhas mãos! Então o resto do meu corpo é para jogar no lixo?!”. Depois fiquei imaginando que pudesse ser uma figura de linguagem: ter mãos bonitas significaria escrever bem. Mas claro que isso não corresponde à realidade. Escrever bem é o que faziam ou fazem Machado, Nelson Rodrigues, Vinicius, Drummond, Chico Buarque, Ruy Castro e Sarney – este não, me enganei, apaguem.
Assim, não consigo entender o que você viu em mim. Melhor pedir para o seu psiquiatra aumentar a dose do antipsicótico. Ou então não. Continue a dizer coisas bonitas no meu ouvido. Prometo que um dia vou acreditar.
17/09/2011



segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ORIENTAÇÃO DE MESTRADO





Recebi de uma aluna a seguinte mensagem:

Elie, por favor, não me olhe mais com essa cara de "terminou de escrever o artigo?"!

Respondi:

Cara Luciana,
Se eu fosse psicopatólogo – e, por acaso, eu sou -, diria que você está apresentando uma ideia deliroide de autorreferência, de base interpretativa.
Se eu fosse psicanalista – e, por acaso, eu sou -, diria que você está projetando em mim seu sentimento de culpa.
Se eu fosse seu amigo – e, por acaso, eu sou -, diria que compreendo, que você pode ficar tranquila e não se preocupar.
E, se eu fosse seu orientador – e eu também sou -, diria para você parar de frescura e escrever logo essa p...!!!

 12/09/2011