quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

ESCREVENDO O LIVRO SOBRE O WOODY ALLEN




Meu amor,
Fiquei um pouco constrangido quando você me perguntou se hoje eu não tinha UERJ, mas tenho que lhe revelar a verdade. Para escrever o livro sobre o Woody, a partir de hoje, não vou mais à UERJ, ao IPUB ou ao consultório. Preciso de tempo integral para me dedicar à escrita. Assim, nos próximos 11 anos e meio, que é a previsão para eu terminar a primeira versão do livro, você vai ter que me sustentar. Mas não se preocupe, pois não vou dar muita despesa. Ficarei feliz vivendo apenas com a sua vitamina de morango e os seus beijinhos.

27/02/2018

CONVERSA DE ELEVADOR




Na portaria do prédio, os dois vizinhos esperam o elevador. O porteiro entrega a eles as suas correspondências, há pouco deixadas pelo carteiro. Chega o elevador, um abre a porta para o outro, que formalmente agradece e retribui a gentileza:

---- Qual é o seu andar?

E agora? Viria aquele silêncio constrangedor? Alguém faria comentários sobre o clima?

---- Só contas pra pagar. --- Reclama um deles, quase que mecanicamente.

---- Pois é, e nenhuma carta de amor! ---- Lamuria-se o outro, suspirando profundamente.

Diante de uma resposta tão inusitada, vinda de um quase total desconhecido, o primeiro fica desconcertado, sem saber o que dizer.  Mas logo o seu andar chega para resgatá-lo.

MENTIRAS


--- Você fala essas mentiras para todas?

--- Que isso, meu bem?! Fico até ofendido com essa pergunta. Juro que minto só para você, para mais ninguém!


(2014)

RETIRANDO O PASSAPORTE



Na Polícia Federal, retirando meu passaporte, o funcionário me estende uma folha de papel e diz:

--- Escreve aí seu CPF com letra bem legível.


Obediente que sou, comecei a escrever: “nove”, “três”...


(final de 2014)

SEM COMENTÁRIOS




Entreouvido na noite carioca:

--- Eu conto toda a minha história e você não faz nenhum comentário!

--- Era pra fazer comentário? Por que você não disse antes? Aí eu teria prestado atenção.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MENTE E CORPO







Mente e corpo são algo único e indivisível ou representam duas coisas diferentes? Para Woody Allen, “a mente abarca todas as mais nobres aspirações, como poesia e filosofia, porém o corpo é que fica com toda a diversão”. Segundo uma corrente filosófica bastante radical, o materialismo eliminativo, só o corpo é real e a mente simplesmente não existe. Isto até pode ser verdade, pelo menos em relação aos participantes do Big Brother Brasil, com seus corpos esculturais e cérebros inteiramente inabitados.
No meu caso em particular, mente e corpo estiveram sempre muito separados e nunca se entenderam muito bem. Para mim, meu corpo era meramente um meio de transporte, provisório, para a minha alma. Esta concepção se formou quando eu era criança, em função de minha educação católica, que me fez valorizar apenas a alma e desprezar o corpo. Aprendi que eu tinha que ser um bom menino para que a minha alma, imortal, fosse para o Céu após a morte do meu corpo, impuro.
Mais tarde, já que a Deise, minha sedutora colega do ensino médio, não queria nada comigo, passei a adolescência lendo Machado de Assis e Nelson Rodrigues, jogando xadrez e vendo no cinema ou em videocassete Hitchcock, Woody Allen, Frank Capra e Truffaut. É verdade que também jogava uma bolinha de vez em quando e sonhava em ser ponta-direita do Flamengo. Mas eu era tão ruim no futebol que acabei indo fazer faculdade de medicina mesmo. Afinal, por pior médico que eu viesse a me tornar, não mataria tanta gente quanto se fosse atacante do Mengão – os corações de milhões de torcedores não resistiriam a tantos gols feitos perdidos.
Na vida profissional, continuei negligenciando o corpo e me dediquei à psiquiatria, a especialidade médica que cuida das doenças da mente. E ainda fui fazer formação psicanalítica, onde aprendi que o corpo e o cérebro são meros detalhes inconvenientes. (Para ser justo, não era bem assim que Freud pensava. Se ele ressuscitasse agora e visse o que fizeram tomando seu santo nome em vão, com certeza cometeria suicídio!)
Todavia, recentemente, meu corpo resolveu se vingar e tive que dar mais atenção a ele. Num belo dia, forte fisgada na coluna lombar, do lado esquerdo. Este foi o laudo da ressonância magnética: “osteófitos marginais incipientes em L4, L5 e S1; abaulamento discal difuso em L4-L5 endentando o saco dural e as porções inferiores dos foramens neurais”.
Consultei-me com uma fisiatra, a dra. Elizabeth, que diagnosticou que eu tinha problemas quanto à consciência corporal. Eu já sabia disso e relatei a ela um episódio que ilustra bem essa minha dificuldade. Certa vez, eu tinha ido ver um filme do Bergman com uma amiga. Depois da sessão, enquanto debatíamos o profundo significado da obra, de repente ela soltou um grito: “tira a mão daí, seu...!”. Não adiantou nada eu dizer que minha consciência corporal era igual a zero e que eu não tinha a menor ideia de como a minha mão tinha parado ali, justamente ali. Levei o tapa no rosto do mesmo jeito...
A fisiatra também me disse que eu não conseguia escutar o que meu corpo dizia. Achei que ela iria indicar uma audiometria ou me encaminhar a um otorrino, porém, em vez disso, ela recomendou Pilates e RPG.
Na primeira vez em que fui à aula de Pilates, fiquei bastante confuso. Chegando lá, vi aparelhos que lembravam instrumentos de tortura da Inquisição, mas também diversas bolas grandes e coloridas. Eu não sabia se iam esticar todo o meu corpo até que eu confessasse ser um herege ou me botar para brincar. Depois vim a descobrir que as duas coisas acontecem.
A RPG, por sua vez, até hoje é para mim um pouco estranha. No início de cada sessão, fico ali deitado e, Clarissa, minha dedicada fisioterapeuta, puxa daqui e empurra de lá, tentando colocar minhas vértebras de volta ao lugar certo. Parece que estou em uma oficina de automóveis: é como se ela fosse o lanterneiro e eu, o carro amassado. Só a pintura ela não faz...
De uns tempos para cá, além do Pilates e da RPG, tenho feito caminhadas, voltei a nadar, parei de beber e só como alimentos saudáveis. Desisti da Academia Brasileira de Letras e entrei para uma academia de ginástica mesmo, onde faço Indoor Psycho, ou melhor, Indoor Cycle. Agora, em vez de currículo Lattes, tenho currículo Pilates. Em suma, nunca cuidei tão bem da minha saúde física. Transformei-me em outro homem e meus hábitos se modificaram profundamente: o tempo todo ouço música sertaneja, fui a um festival de filmes do Stallone, estou lendo um livro de autoajuda, mandei fazer meu mapa astral e marquei uma consulta com um numerólogo. Tem até me dado uma vontade irresistível de ver o Big Brother na TV!
Pois é, agora é a minha mente que está se sentindo negligenciada...


12/01/2012

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ESPÍRITO ZOMBETEIRO





Recentemente, uma colega acessou meu blog e comentou que as crônicas ali postadas pareciam não terem sido escritas por mim. Segundo ela, os textos eram tão diferentes do meu modo de ser que era como se eu tivesse outra personalidade. Minha cara, você matou a charada! De fato, não sou o autor de nada daquilo. Todas as crônicas, acredite, foram psicografadas. Sim, vez por outra, uma alma de outro mundo, um espírito zombeteiro, invade meu corpo e o usa para escrever todas aquelas bobagens.
Gostaria de deixar bem claro que, diferentemente do que aparece nas crônicas, sou um homem muito sério, extremamente religioso e temente a Deus. Não torço por nenhum time de futebol e nem sei quais são as cores da camisa do Flamengo. Nunca ouvi falar nessa tal de Scarlett Johansson e só tenho olhos para a minha linda esposinha, de quem jamais me divorciaria. Amo minha mãe e adoro todos os meus colegas de trabalho e vizinhos, especialmente o general Waldick, do 505. (Na verdade, nem existe um quinto andar no meu edifício. Por uma incrível falha de engenharia, na construção do prédio esqueceram-se do quinto andar e colocaram o sexto imediatamente acima do quarto.) Não vejo a menor graça nos filmes do Woody Allen e só assisto a documentários científicos. Continuo acreditando que a psicanálise, principalmente a lacaniana, é a solução para tudo e para todos, e, apesar de a minha terapia ter sido muito bem-sucedida, ainda vou às sessões oito vezes por semana. Por fim, nunca tive Facebook e... odeio escrever!
O problema é que, de uns tempos para cá, o espírito não tem se contentado mais em apenas me fazer escrever as crônicas. Ele agora tem também assumido o controle sobre meu corpo e minha mente nas mais diversas situações. Assim, meu querido amigo, não fique magoado comigo por eu tê-lo chamado de “careca arrogante, estúpido e sem escrúpulos” e, em seguida, tentado estrangulá-lo, até ser contido por vários de nossos colegas. Quando fiz isso, eu não era eu. O que aconteceu foi que o espírito tinha se apossado de mim.
Novamente eu não era eu quando, vestido com uma camisa rubro-negra, entrei no meio da torcida do Vasco, em São Januário, gritando um monte de impropérios e fazendo gestos obscenos. Era tão evidente que eu estava fora de mim que os vascaínos nem se incomodaram comigo e ficaram totalmente indiferentes ao meu comportamento. (Portanto, foi inteiramente desnecessária e despropositada a intervenção dos 117 policiais militares, que, me agarrando pelos braços e pernas, muito gentilmente me convidaram a me retirar.)
Eu também estava sob o domínio do espírito maligno quando, num bar em Fortaleza, após meia dúzia de chopes, subi na mesa e comecei a fazer strip-tease, enquanto cantava os maiores sucessos de Carmen Miranda. O mesmo se deu no episódio em que, no meio de uma aula de psicopatologia que eu ministrava, para espanto de toda a classe, pulei para cima de uma voluptuosa aluna sentada na primeira fileira, tendo caído dentro de seu muito generoso decote. (Agora, depois que voltei da suspensão, só permitem que eu ministre aula usando uma corrente que prende minha perna à parede, impedindo, assim, maiores saltos na minha imaginação.)
Bom, acredito que agora já esteja esclarecida a minha total inocência nesses lamentáveis fatos, dos quais, aliás, não me lembro de nada. Depois de quinze anos de análise, não tenho mais nenhum problema em assumir a responsabilidade pelos meus atos – desde que, é claro, meu corpo não esteja possuído por um espírito zombeteiro.

05/12/2011